FORUM DE DISCUSSÃO:
FRONTEIRAS E INTERFACES DA PSICOLOGIA

 


O Forum abordará a interface da Psicologia com outras áreas do conhecimento,
em especial as Ciências da Saúde, as Ciências Exatas e as Ciências Sociais.
Dará atenção diferenciada à interface da Psicologia com as Neurociências, a
Fonoaudiologia, a Fisioterapia, a Terapia Ocupacional, a Lingüística, as
Ciências da Computação, a Antropologia e, em especial, a Educação e a
Educação Especial. Abordará como essa interface tem descortinado áreas de
fronteira que constituem verdadeiros filões ainda muito pouco explorados
para atividade científica, profissional e clínica. Explorará a importante
questão do papel da Psicologia brasileira para o estabelecimento de
políticas públicas em Educação e Saúde nas esferas federal, estadual e
municipal. Insistirá que cabe à Psicologia um papel muito mais destacado no
cenário científico nacional, devido ao seu teor essencialmente
multidisciplinar e ao seu papel de interface entre as Ciências Naturais e
Sociais. Comentará como a Psicologia brasileira tem exercido um papel ainda
tímido, quando comparado à importância de seus achados e à atuação da
Psicologia em países mais desenvolvidos, tomando como parâmetros de
comparação os Estados Unidos, a França e a Inglaterra. Recordará como nesses
países a Psicologia, por meio de programas de pesquisa sólidos (mas não
muito diferentes de muitos presentemente em curso no Brasil), tem
influenciado as políticas públicas de Educação e Saúde, contribuindo para a
eficiência do emprego dos recursos públicos para a melhoria efetiva da
qualidade dos serviços públicos e da qualidade de vida da população.
Demonstrará como a Psicologia brasileira já dispõe de know-how para atingir
patamares superiores de projeção social e para contribuir de modo
mais efetivo para o estabelecimento de políticas públicas em educação e
saúde fundamentadas em conhecimento científico. Explorará maneiras de fazer
com que a Psicologia atinja a posição que lhe cabe e ofereça a contribuição
efetiva que dela se espera, e que só ela pode oferecer.

Numa fase inicial dos trabalhos deste Fórum será traçado o perfil de
interfaces que a pesquisa brasileira em Psicologia mostra com outras áreas
do conhecimento, através do Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq e como
este perfil se relaciona com as políticas nacionais de financiamento à
pesquisa. Será também identificado o perfil atual de apoio à pesquisa em
Psicologia por agências estrangeiras com perfil equivalente ao CNPq para
verificar a relação entre esses perfis.
À guisa de provocação inicial, são apresentados exemplos de investimentos
em interface da Psicologia com outras áreas através da identificação do
perfil de relatos de pesquisa em periódicos estrangeiros de elevado
impacto, de  análise de indicadores brasileiros de política nas áreas de
ciência, tecnologia e educação e de dados de pesquisa dos proprios
organizadores deste Fórum.

A apreciação do modo como a Psicologia pode ser inserida no contexto
multidisciplinar será feita usando como exemplo os Estados Unidos. Para
tanto, será discutida a análise do perfil de financiamento atual do National
Science Foundation, cujos dados revelam a centralidade da pesquisa
multidisciplinar. Será também apresentada uma análise da presença da
Psicologia em números mais recentes das revistas Nature e Science, com
vistas a apontar algumas das áreas da Psicologia que têm recebido atenção
diferenciada. Serão apresentadas publicações abordando a possibilidade de
maior contribuição da Psicologia para a educação básica à luz das políticas
vigentes do MEC. Serão também discutidas as implicações de dados de colegas
sobre as relações entre as pesquisas de bolsistas de
produtividade do CNPq e as ações transversais do CNPq.

Como exemplo das profundas e irreversíveis mudanças em curso, o Forum
abordará o impacto de novas tecnologias aperfeiçoadas na década do cérebro,
tanto de avaliação (como ressonância magnética funcional, tomografia por
emissão de positrons) quanto de intervenção (como a estimulação
transcraniana magnética ou por corrente contínua), sobre a
Psicologia (com seus modelos teóricos e práticas clínicas e educacionais),
bem como sobre as muitas áreas de interface que se baseiam nos modelos da
Psicologia para a sua constituição efetiva, como a Educacão, a Educação
Especial a Fonoaudiologia, a Neuropsicologia, a Psicolingüística, dentre
muitas outras. Abordará as conseqüências das novas tecnologias para a
constituição de uma nova Psicologia transdisciplinar de ponta que une a
neurociência à antropologia cultural, e cujos resultados extrapolam os
limites do meramente acadêmico e funcionam como braços para a operação na
sociedade.

O Forum ilustrará esses pontos por meio do relato de esforços atualmente em
curso por equipes multidisciplinares de diferentes universidades em torno de
projetos ambiociosas do ponto de vista científico e tecnológico e de
repercussão para a educação e a saúde da população brasileira. Como exemplo
de um dentre muitos projetos arrojados de Psicologia científica socialmente
efetiva destaca-se a constituição do Painel Internacional de Especialistas
em Alfabetização Infantil (composto por expoentes da Psicologia de
universidades renomadas como Harvard, Leeds, Bruxelas, Rennes, USP e UFMG)
que, a convite da Câmara dos Deputados, apresentou ao Congresso Nacional o
Relatório intitulado "Os Novos caminhos da Alfabetização Infantil" propondo
uma revisão drástica das práticas de alfabetização brasileira, com base na
pesquisa científica internacional em Psicologia produzida desde a década do
cérebro.

Para além da mera constatação de esforços bem sucedidos de equipes
multidisciplinares de pesquisadores articulados em redes de pesquisa que
abrangem todo o território nacional, o Forum pretende dar uma contribuição
para promover a consolidação e extensão de diversas dessas redes cobrindo
efetivamente todo o território nacional. O Forum pretende servir de
plataforma aberta para o lançamento de novas redes em torno de projetos de
envergadura nacional. Dentre os diversos projetos a  serem lançados durante
o Forum destaca-se o da constituição do Lab-Observatório Nacional da
Linguagem. Trata-se de uma versão ainda mais arrojada do famoso Observatório
Nacional da Leitura da França. É mais arrojada por duas razões:
1) em primeiro lugar não se limita à linguagem escrita (i.e., leitura e
escrita), mas se estende à linguagem oral, escrita e de sinais;
2) em segundo lugar, não se limita à função típica de um Observatório, que é
a de avaliar o fenômenos de que trata e de acompanhá-los à distância, mas se
propõe a exercer a função típica de um Laboratório, que é a de intervir
efetivamente para a produção e modulação desses fenômenos. Ou seja, o
Lab-Observatório não apenas acompanhará o desenvolvimento da linguagem oral,
escrita e de sinais em todo o país por meio de avaliações e teleavaliações
contínuas em todo o território nacional como, também, promoverá intervenções
experimentais no campo para descobrir como melhor promover o
desenvolvimento, a reabilitação e a inclusão escolar e social efetivas, bem
como a reversão da condição brasileira como recordista mundial de
incompetência de leitura.

Dentre as inúmeras frentes de pesquisa dos pesquisadores do Lab-Observatório
Nacional da Linguagem, destacam-se a avaliação e teleavaliação via Internet
do desenvolvimento da linguagem oral, escrita e de sinais, bem como de seus
distúrbios, em toda a população escolar brasileira, bem como a
teleintervenção e teleavaliação do impacto de diferentes métodos, técnicas e
recursos de intervenção para a sua educação, reeducação e reabilitação. O
projeto mapeará a incidência de distúrbios neurolingüísticos (como a
dislexia do desenvolvimento), neurossensoriais (como a surdez congênita) e
neuromotores (como a paralisia cerebral), bem como as práticas presentemente
em curso para lidar com esses quadros, e testará a eficácia relativa de
programas de reabilitação cientificamente embasados para inclusão escolar e
inserção social efetivas dessas populações. O projeto também promoverá a
teleavaliação das competências lingüísticas e cognitivas da população
escolar pertencente a diferentes faixas de fracasso escolar documentado no
Sistema de Avaliação do Ensino Básico do MEC, com vistas a identificar a
natureza do fracasso e a eficácia diferencial de diferentes métodos e
técnicas nesses casos.

A História recente da Educação Mundial revela que, em todo o mundo, foi a
Psicologia que acudiu a Educação no desafio de resgatar da competência da
população escolar. O referido Relatório prova como isso ocorreu. No Brasil,
não pode ser diferente, e o tempo para isso é chegado. A relevância do
Consórcio de Psicólogos Pesquisadores para endereçar o problema do fracasso
escolar brasileiro é atestada pela persistente posição do Brasil como um dos
recordistas mundiais de incompetência de leitura, segundo a Unesco e a OCDE.
Pela proposta,  todos os pesquisadores consorciados ao Lab-Observatório
Nacional da Linguagem recebem todos os materiais de avaliação e
intervenção, devendo apenas encaminhar seus achados com uma amostra ampla
para análise geral, e têm coautoria em todos os achados coletivos. Achados
de projetos de pesquisa de envergadura como esses têm representatividade
nacional e grande peso para subsidiar o aperfeiçoamento das políticas
públicas de educação no Brasil.

Dentre seus objetivos, este Forum se propõe a servir de espaço para
propostas de iniciativas de envergadura, e para a articulação efetiva dos
pesquisadores que o desejarem em torno de projetos de sólido interesse
compartilhado e grande importância  para a Psicologia e a Nação brasileiras.

Fernando C. Capovilla, USP
Maria Ângela G. Feitosa, UnB